segunda-feira, 13 de outubro de 2014

às 4 da manhã

estar em si. somos uma rachadura no infinito. hachuela
gosto desse som
só que como um diálogo
sempre inacabado. sempre na cesura
sempre na contingência. sempre um esboço.

a morte é tudo o que existe
já que o pensamento enquanto humano
é sempre uma morte.
mesmo quando crescemos estamos morrendo.
eternamente caminhando.
Se o presente está sempre morrendo
a morte não existe. Ou nada existe além da morte.
quer saber, não importa.
Os passarinhos cantam às 4 da manhã
do mesmo jeito.

"Vejo que está sofrendo. Mas se não pode mudar a si mesmo, tente mudar o mundo.
Fique bem, isto é o mais importante!
Por que só os tolos sentem-se bem?
A estupidez é infalível, você sabe
e o mundo não faz sentido sem a estupidez humana.
As vezes penso que todas as nossas categorias humanas
são uma farsa e tudo é o oposto : a vitória é uma punição
e a perda é um prêmio. Quer saber, vemos a vida como o maior valor
e a morte como a pior das perdas. E se a morte tivesse maior valor e a vida
fosse uma derrota? Mas pense.. Parafraseando Epíteto, o passado não pode morrer
porque já está morto. O futuro não existe porque ainda não chegou. Só o presente pode morrer,
o momento atual e está constantemente morrendo. Conclusão?  A morte não existe.
Ou nada existe, exceto a morte.Oh, eu adoro livros. Só eles me levam à sério.
-São generalizações, Tia
-Eu não posso ouvir isso. Sim, sim eu entendo. E vejo que a escuridão reina em você.
Mas você sabe, traduzi um poema persa antigo recentemente e falava algo lindo
sobre a escuridão. " a escuridão não é o oposto da luz, mas o seu berço. Só na escuridão a luz pode nascer."
Eu vou ler para você.

Sêneca, Cartas a Lucilius
"Não encontramos com a morte de repente, mas andamos em direção a ela através
de pequenos detalhes que morrem todos os dias. A cada dia que passa, um pouco da nossa vida é tirado de nós. Mesmo quando crescemos a nossa vida está em declínio. Perdemos nossa infância e, depois, nossa juventude. Contando até ontem, todo o passado está perdido. Até o dia que estamos vivenciando agora é compartilhado entre nós mesmos e a morte. Nós atingimos a morte em determinado momento embora tenhamos estado muito tempo na estrada."

E Heidegger com sua ideia de floresta. Sabe, Heidegger compara a vida com estar em uma clareira. Isso é um tipo de clareira, ou um feixe de luz. Antes de nascermos, nós vivemos naquela floresta escura como um ser em potencial. E quando nascemos, nós vamos para essa clareira, para a luz, para sermos visíveis. Mas as pessoas só nos vem do ponto que elas nos observam. E durante nossa vida, ninguém, ninguém nos vê como um todo. E depois da morte voltamos para essa floresta escura, tendo o nosso ingresso registrado no livro da vida pois, de acordo com Heidegger, o ser é indestrutível. Então o que é a morte? A decomposição da matéria? A destruição da consciência? Ou é a separação, é sumiço do campo de visão e dos sentimentos? Quantas pessoas já enterrei embora estando vivas? Quantas já me enterraram? Enquanto eu existo, eu penso e sinto? Havia fortes laços entre nós, vivíamos juntos, passávamos por experiências semelhantes, de repente, sem nenhuma explicação, paramos de encontrar-nos, telefonar e escrever um ao outro. Usualmente, por algum motivo
insignificante.Alguém se afastou, disse algumas palavras indelicadas ou olhou para alguém de forma errada. Ou pelo menos parecia. Ou alguém disse que alguém disse que alguém tinha dito algo ou coisa parecida. E por isso tornou-se banal.

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