domingo, 26 de maio de 2013

amores surdos

danço pra me confundir
os rostos estão todos
maqueados

liberdade: é viver solto
por ai.
não vou me prender a ninguém,
meu amor é universal
vem, vai.

não tem nome
identidade
cpg
ou rg.
ele existe e só isso.

livre é aquele
que nem se sabe livre.
ninguém encontra
liberdade buscando
liberdade.

essa liberta-dor
essa indiferença gaia
esse jogo
essa falta de honestidade
me enjoou.

até quando vou continuar sem-vivendo?
liberdade é ser amado e amar.
liberdade é sentir e deixar vir
liberdade não tem nome.

sábado, 18 de maio de 2013

amor neutro

você me olha
me pedindo pra que
eu te veja.

mas eu não vejo nada.
me entregar não é
uma escolha.

meu coração
foi parar nas suas
mãos por acaso:
nada disso faz sentido
algum.

a vida é vivida meu amor.




"Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer – um prazer delicado demais para minha grosssa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.- Fiz tal esforço em me falar de um inferno que não tem palavras. Agora como falarei de um amor que não tem se não aquilo que sente, e diante do qual a palavra "amor"é um objeto empoeirado?O inferno pelo qual eu passara – como te dizer? – fora o inferno que vem do amor. Ah, as pessoas põem a idéia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de pecado maior – é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo é o susto de uma criança. Mas como falarei para mim mesma do amor que eu agora sabia?É no neutro do amor que está uma alegria contínua,como um barulho de folhas ao vento.E eu cabia na nudez neutra da mulher na parede.O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha prece humana.Então vê, meu amor, a verdade não pode ser má.A verdade é o que é.Eu estava habituada somente a transcender.Esperança pra mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre.E descobri que não é necessário sequer ter esperança.Porque as coisas são o que são.Basta saber isso.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Eterno Retorno

as luzes estão acesas
você me olha
como se não me olhasse

vamos andando pela rua
eu não sei para onde estamos
indo.

é como se eu estivesse sendo
inspecionado. Cada milímetro
do meu corpo está sendo dissecado.

eu queria  só estar ali
mas se você não está ai
eu também não posso
estar.

não tenho pressa.
tudo está onde deveria estar
por mais doido que isso pareça:
Eterno Retorno.



quarta-feira, 15 de maio de 2013

do ser o que se é

tudo pesa
tudo dói em algum lugar
o passo está pesado:andar arrastado

as velhas acusações
ainda me machucam.
não vou mais fugir
mas está difícil
conviver.

dói ser eu
dói pensar sobre mim
a dor é saber que eu vejo demais

fico tão carente
e ai percebo que ninguém
vai me dar respostas

vou semi vivendo
há dias felizes.
mas parece existir
uma distância intransponível
entre o meu eu e o que vejo.

foram anos fugindo
dessa dor.
e hoje ela me racha o peito.
mas eu vou sobreviver.




sábado, 11 de maio de 2013

dia de faxina

abro as gavetas
recolho os ingressos
os shows,
os lugares
as pessoas..

ontem tudo parecia arrumado.
mas hoje acordei com tudo revirado:
tudo fora do lugar.

cada música é um momento
alguém que passou
e sou essa coisa confusa
que viveu esses momentos

o que fica?
o que vai pra parede?
o que guardo no peito?
as minhas perguntas
deixam ainda mais confundido
meu coração que já bate letárgico.

os nomes não cabem mais
e nem há lugar pra tudo isso:
estou esvaziando.

vou deixar as gavetas vazias,
o coração vazio
pra poder preencher com o que vier.

vou aos poucos me desencontrando de mim
estou sendo?
me surpreendo comigo
e sinto um leve frio na barriga:
salto no abismo do desconhecido!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

quase

por um milésimo de instante
nós éramos
fomos
somos.

mas ai eu te olho
você me olha
meu coração dispara
e somos dois estranhos.

tento disfarçar;
desvio o olhar.
começo um assunto banal:
"como foi seu dia?"

você me responde,
mas não é a resposta
que eu quero,
eu quero você.
(silêncio)

cada um vai
para um lado.

te vejo de longe com alguém.
sinto uma leve náusea:eu existo.
e por mais doido que pareça
tudo está como está.
não vou me vingar
nem tentar disfaçar
isso não é um jogo: é amor.

vou embora calado.
não choro:sorrio.

será que eu sou tão demodé?
será que eu sou  um museu de velhas novidades?
já estou cheio de me sentir vazio.