sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

vacina chinesa


não fazia diferença
mas a população idosa
de Copacabana já se preparava
para ir às ruas e dizer que não ia
tomar vacina da China e que o
Brasil nunca ia ser um país comunista

Era mais uma daquelas manifestações
convocadas por correntes de WhatsApp
O engraçado era o prazer que essas pessoas sentiam em afirmar que o Brasil nunca seria comunista, onde o liberalismo nunca foi pleno e sempre foi claro que as leis do mercado nunca iam funcionar plenamente.

O mesmo tipo de velhinho que vai a essa manifestação é o do tipo que culpa a desgraça alheia sempre argumentando com preguiça - que - quem quer sempre consegue.
ai de quem quer a cura
ai de quem sente a ponta da agulha.
ai de quem sente culpa.
ou de quem não mergulha, tão profundamente quanto eles na corrente.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Reflexões sobre a morte



"Vejo que está sofrendo. Mas se não pode mudar a si mesmo, tente mudar o mundo.
Fique bem, isto é o mais importante!
Por que só os tolos sentem-se bem?
A estupidez é infalível, você sabe
e o mundo não faz sentido sem a estupidez humana.
As vezes penso que todas as nossas categorias humanas
são uma farsa e tudo é o oposto : a vitória é uma punição
e a perda é um prêmio. Quer saber, vemos a vida como o maior valor
e a morte como a pior das perdas. E se a morte tivesse maior valor e a vida
fosse uma derrota? Mas pense.. Parafraseando Epíteto, o passado não pode morrer
porque já está morto. O futuro não existe porque ainda não chegou. Só o presente pode morrer,
o momento atual e está constantemente morrendo. Conclusão? A morte não existe.
Ou nada existe, exceto a morte.Oh, eu adoro livros. Só eles me levam à sério.
-São generalizações, Tia
-Eu não posso ouvir isso. Sim, sim eu entendo. E vejo que a escuridão reina em você.
Mas você sabe, traduzi um poema persa antigo recentemente e falava algo lindo
sobre a escuridão. " a escuridão não é o oposto da luz, mas o seu berço. Só na escuridão a luz pode nascer."
Eu vou ler para você.

Sêneca, Cartas a Lucilius
"Não encontramos com a morte de repente, mas andamos em direção a ela através
de pequenos detalhes que morrem todos os dias. A cada dia que passa, um pouco da nossa vida é tirado de nós. Mesmo quando crescemos a nossa vida está em declínio. Perdemos nossa infância e, depois, nossa juventude. Contando até ontem, todo o passado está perdido. Até o dia que estamos vivenciando agora é compartilhado entre nós mesmos e a morte. Nós atingimos a morte em determinado momento embora tenhamos estado muito tempo na estrada."

E Heidegger com sua ideia de floresta. Sabe, Heidegger compara a vida com estar em uma clareira. Isso é um tipo de clareira, ou um feixe de luz. Antes de nascermos, nós vivemos naquela floresta escura como um ser em potencial. E quando nascemos, nós vamos para essa clareira, para a luz, para sermos visíveis. Mas as pessoas só nos vem do ponto que elas nos observam. E durante nossa vida, ninguém, ninguém nos vê como um todo. E depois da morte voltamos para essa floresta escura, tendo o nosso ingresso registrado no livro da vida pois, de acordo com Heidegger, o ser é indestrutível. Então o que é a morte? A decomposição da matéria? A destruição da consciência? Ou é a separação, é sumiço do campo de visão e dos sentimentos? Quantas pessoas já enterrei embora estando vivas? Quantas já me enterraram? Enquanto eu existo, eu penso e sinto? Havia fortes laços entre nós, vivíamos juntos, passávamos por experiências semelhantes, de repente, sem nenhuma explicação, paramos de encontrar-nos, telefonar e escrever um ao outro. Usualmente, por algum motivo
insignificante.Alguém se afastou, disse algumas palavras indelicadas ou olhou para alguém de forma errada. Ou pelo menos parecia. Ou alguém disse que alguém disse que alguém tinha dito algo ou coisa parecida. E por isso tornou-se banal."

sábado, 26 de setembro de 2020

cadeia alimentar

Os passarinhos cantam
alto demais 
e não consigo dormir


O pássaro azul
pode ser só uma
ilusão:desejo
por um brinquedo caro.

Hoje se sonha
com a felicidade
como se fosse matar
o chefão no videogame.

Mas moscas não
param de entrar 
pela janela.
Todo mundo
se acha melhor que
a mosca.

Os pássaros se alimentam
de moscas. 
São a base da cadeia,
mas vivem soltas por aí.






terça-feira, 8 de setembro de 2020

colchão inflável

moscas na pia
roupas espalhadas

o colchão cheio
de ar
o ar deve ser parente da
espuma
porque se fosse nobre
seria da família das molas
ensacadas

mas, mesmo assim,
um vaso de manjericão
caiu do nono andar
e o ar não
amorteceu

passo o dia inspirando
ar,
sem pensar
que preciso

esvazio os pulmões
o silêncio me invade
só consigo me escutar

falar comigo mesmo
é como tentar pegar
o ar.

"tudo que é sagrado é profanado"









terça-feira, 25 de agosto de 2020

mortal

jorra sangue
tonteira
lembro da morte

sinto um medo
novo

como se fosse
aos poucos me esvair
de vida até
desaparecer

pensar que tudo
pode acabar do
jeito que está
dói.

viver é
morrer, mas talvez
prefira pensar que há
amanhã

dizem que um
computador
pode reproduzir
a consciência humana

imagina, mas sem um corpo.

ninguém sabe se seria a
mesma coisa

mas a gente sabe que um dia
chega nossa hora.

isso é ter um corpo?













sábado, 16 de maio de 2020

para curar é preciso criar

"“Para curar uma doença / É preciso conhecer / a doença / É preciso criar o mundo / desde o começo /e ver a doença nascer / para então curar (Dessana Dessana, 1975)"


a parede branca
nada contém.
a moldura criava
uma janela na parede

na cidade não
existe mágica:
tudo é o que é.
olha-se pro horizonte
e só  se vê prédios:
humanidade sem fim

para curar precisamos
criar, inventar um mundo
e ver a doença nascer.

a gente precisa da
doença pra vislumbrar
esse novo mundo:
ela nos descoloniza

precisamos ter fim
para criar, senão
é só continuação

colonizaram para
destruir a magia,
para não podermos
criar.

inventaram deus
e o diabo para
nos conformar
com o fim da
magia

talvez nem seja
a doença que mate,
porque já estamos
morrendo.

o que mata é
nos roubar a magia
e nos confinar
num cubo de
paredes brancas.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

( )

No branco
marco o ponto
que o tempo
passa.

Antes fosse
uma árvore:
mais útil seria.

o chefe se arvora
a ser Deus:
a raiva não
destrói a falta
que ele marca.

No liquidificador
tudo se mistura:
hierarquia não se
dissolve.

Rasga a liberdade
Controla o tempo
Suprime o desejo
Comprime a vontade

O tempo passa
A folha está marcada
Isso que importa