sexta-feira, 17 de outubro de 2014

a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa

"A punição ideal será transparente ao crime que sanciona; assim, para quem a contempla, ela será infalivelmente o sinal do crime que castiga; e para quem sonha com o crime, a simples ideia do delito despertará o sinal punitivo. Vantagem para a estabilidade da ligação, vantagem para o cálculo das proporções entre crime e castigo e para a leitura quantitativa dos interesses; pois tomando a forma de uma consequência natural, a punição não aparece como o efeito arbitrário de um poder humano."
Vigiar e punir. Petrópolis, Vozes, 1987, 27a Ed. p. 87


Hoje me deparei com mais um discurso de ódio anti PT a qualquer custo na minha timeline.O que me assusta é que isso tem se tornado cada vez mais normal e não se discute mais política, apenas corrupção. Eu, na minha inocência, me achei capaz de desconstruir tal discurso de ódio e enviei ao dito cujo a declaração de bens de Aécio Neves.

Nesta declaração que consta no site do TSE (http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2014/sistema-de-divulgacao-de-candidaturas) começa com um apartamento na Lagoa/Leblon pela bagatela de R$ 109.550,00. Ora, por essa micharia qualquer trabalhador que se esforçasse poderia ter um apartamento no Lagoa com um financiamento do " Minha casa, minha vida".Tenho certeza que muitos trabalhadores iam adorar essa possibilidade de morar com aquela vista. Além disso, sua qualidade de vida seria outra, poderiam correr de manhã na Lagoa, ir de metrô pro trabalho.. Acontece que essa é a realidade de uma minoria muito pequena. Um grão de areia no mar.Por isso a declaração de bens de Aécio é uma impáfia. Um insulto a inteligência. Como nosso querido candidato não anda de ônibus, não usa a saùde pública(não é a toa que não investiu nem 12% do orçamento do Estado de Minas em saúde), não estuda numa escola pública e etc..No entanto, ele não trabalhou duro para conseguir comprar um apartamento, simplesmente nasceu neto de um presidente da república.

Meu dia segue. No trânsito, num engarrafamento. Várias mercedes passam em volta do carro do meu pai velozes e penso: O que leva uma pessoa a comprar um carro que vale mais do que a casa de muita gente? Só pode ser pra ostentar, porque custo benefício de se ter uma Mercedes em terras tupiniquins inexiste. 
Repentinamente, aparece um motoqueiro encapuzado e aponta uma arma para o motorista da Mercedez. Isso o intimida e faz com que ele abra o vidro. Apontando a arma ele consegue fazê-lo entregar o relógio, carteira . Em seguida, ele sai numa arrancada pelos corredores entre os carros. Simultaneamente, um homem negro e corpulento sai da mercedes armado correndo atrás do motoqueiro.Por sorte, não começou um tiroteio em pleno engarrafamento na Avenida das Américas.
De que serviu o segurança pro dono da Mercedez? Que diferença faz uma carteira e um relógio para ele? O que é a vida?

Nessa tensão paradoxal em que vivemos somos lobotomizados, automatizados. Somos condicionados a nos sentir de uma determinada forma já que só existimos nesta porra de capitalismo enquanto consumidores(enquanto escrevo este texto a Claro me liga para oferecer uma promoção). Temos nossos desejos de tal forma manipulados que acabamos por criar relações emocionais com mercadorias. Agora, o que veio antes o mercado ou a vida?

Essas eleições não estão fáceis, estamos encurralados feito gado em BRT/ônibus/trem/metrô/engarrafamento.Não temos nenhuma opção de esquerda que nos satisfaça. No entanto, eu sei o que não quero: a naturalização do primado do privado sobre o público. E sei quem representa esse projeto político.

Democracia se faz com direitos e transparência. para todos discutirem.E o segurança está ali para deixar as coisas opacas. Qual é o sentido de um policial privado?

Hoje, peguei um BRT lotado p voltar p casa, sem espaço nem p respirar. Não tenho dúvidas de que ele estava cheio porque haviam muitas mercedes andando na rua com apenas um ocupante. Diante de tal indignação, decidi filmar o ônibus partindo. Eis quando tento pegar o movimento do veículo se afastando da plaforma me aparece um segurança e põe a mãe na frente do meu celular. Fiquei posesso diante de tal atitude e lhe questionei:Porque? Ele me responde: Normas da empresa. Eu vocifero: Isso não é lei.

Em que Estado vivemos?  Para Weber, o caracterizava o Estado era o nonopólio da coerção ou seja, da violência física institucionalmente legitimada. No entanto, hoje somos coagidos por seguranças dentro do âmbito do privado. Vivemos num Estado de direito? Por isso tenho nojo do projeto privatista. Por isso, vou votar 13, apesar de todas contradições.

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