quarta-feira, 24 de outubro de 2018

pássaro azul

eu o vi na praça
mas no instante que
tentei fotografá-lo
ele se foi

Esperava que pudesse
eterniza-lo.
Mas, pelo menos, vi seu reflexo

O que me fez perceber
que em algum lugar
dentro de mim eu permito
que ele exista e o percebo

Então, ele estaria fora ou
dentro?

Acho que diria que está
ao mesmo tempo fora e dentro:
Porque ele existe
mas eu o percebo

Só que diferente dele eu
tenho consciência de que existo,
percebo, sinto e penso.
Ele, talvez, só exista.
Por isso é mais feliz.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Suavidade

A tal da felicidade
Sempre a imaginei
escondida: não podia estar
na concretude do real

Essa tal realidade oscila
As vezes parece vazia
como um feed do Facebook

E não sabemos onde encontrá-la
Pensamos que pode ser nas férias
Ou num momento de catarse, como o
aniversário

Ou fugimos para intensidades
afim de sentir uma montanha
russa no estômago afim de suprimir
essa falta.
Só que no final, acabamos de mãos vazias.

Mas ela é bem mais simples
Diferente da eternidade
porque não é absoluta, ela é
passageira como o vento.

Está como se fosse no vento que nos
sopra pra cima ou pra baixo
que nos deixa com aquela sensação de movimento.

Por isso não adianta fugir atrás  dela,
é como correr pra sentir o vento.
Nos resta observar e tentar senti-la nas pequenas coisas.

Como o movimento das marés,
nossos momentos de auge e fundo
oscilam e ser feliz é  estar bem com isso.
Saber que o tempo é inventado e que tudo de bom e ruim também é passageiro.

O sentido está no caminhar:
en lutar sem se importar em ser derrotado.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Utopia real

Não sei o que é
Mas sei que me sinto bem
Parecia aleatório
no inicio, mas depois
parecia que não podia ser
outra coisa.

A vida pulsava na árvore
como se aquele tivesse
que ser o seu lugar.
Não poderia haver outro.

A dor de carregar os
frutos até a primavera
parecia seu destino.
Havia até um certo
prazer nessa dor.

Ela balançava ao vento
como se a vida fosse
uma utopia real demais
pra nos fazer perdedores.

Ela trazia consigo a perseverança
advinda da sabedoria
das ancestralidades.
Não era cética,  já sabia o que era real
e nem por isso deixava de ser utópica.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Capetalismo

Queria falar alguma coisa
Mas só consigo pensar
nos milhões morrendo de
fome.

Queria expressar algo bonito,
mas não paro de pensar nos que
morrem na fila do hospital.

Tudo parece fútil diante da desigualdade.

E aí, me pergunto, e se eu não falar nada?
Sabe, ontem um conhecido tava me falando que ele tinha um tio que ganhava
muito dinheiro com a bolsa de valores.

Eu só conseguia pensar no que eu perdia para o banco todo mês em taxas..
A raiva que eu sentia me fazia capitalista.

Queria ter nascido longe de tudo isso
viver da terra e ver o divino na natureza
mas esse modo de vida me deixou desconfiado de tudo.

Quando a gente tá longe nada faz sentido, o tempo passa devagar e navegamos no sentido das horas.

E talvez a beleza da vida esteja em nada fazer sentido, em parar de reagir e só ser. Quem sabe assim me livraria do capitalismo que reside nas minhas entranhas.

Só observar os peixes, o passar das horas, os pássaros..

segunda-feira, 19 de março de 2018

Calça jeans

ela me aperta
e me diz pra
estar ereto

não consigo dançar:
movimentos velhos

a pista de dança fica vazia.
ah, a juventude e essa ansiedade
por alguma coisa.

as vezes é só um calor
um olhar
uma carência
acontece que estou preso
nessa calça

queria dizer alguma coisa
mas posso estar sendo
observado

tento respirar: a compressão
dos meus membros inferiores
força minha garganta
silencio.
(posso parecer idiota)

sabe talvez seja isso:
coisa nenhuma.
chato é esse sentimento
calça jeans, não é
orgânico.

mas é a vida né,
fazer o quê?
as vezes nada
é nada
mesmo.

que pena, a juventude
chora.
paciência.

ninguém aqui é Ulisses.
e a Penélope não mais
espera.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

metafísica

pensei e quando parei
percebi que eram
só mortificantes
especulações

(da onde vem minha necessidade
de determinadas certezas?)

no final, parece tudo igual
penso e não chego a lugar nenhum
continuo, trabalho
pago contas, janto,
durmo, acordo..

se isso nunca vai mudar,
o que importa o futuro?
o que vou comer amanhã?
que horas devo acordar?

em círculos vou me mortificando
me cansando até
não me aguentar mais,
aí mudo de tarefa
e tento fingir que nada aconteceu

parece que vivo a me perseguir
e nunca consigo ser o que gostaria
estou sempre longe do objetivo
até quando isso vai se repetir?

talvez o tempo seja uma doidera
dessa maluquice também
vou deixar passar..