sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Abismo pós moderno

O pensamento vê totalidade. O sentimento é sempre partilhado e fractal. Como um caleidoscópio de sensações.

Entre esse tudo e esse nada nós vivemos. Numa floresta escura, ou um vazio, ou uma floresta tropical. Alquebrados.

" Surdo, na universal indiferença, um dia, Beethoven, levantando um desvairado apelo, sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo... E o seu mundo interior cantava e restrugia. Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo, viu, sobre a orquestração que no seu crânio havia, os astros em torpor na imensidade fria, o ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo. Era o nada, a eversão do caos no cataclismo, a síncope do som no páramo profundo, o silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo... E Beethoven, no seu supremo desconforto, velho e pobre, caiu, como um deus moribundo, lançando a maldição sobre o universo morto! "

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Gado: http://youtu.be/7tV5J8NP3DA

a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa

"A punição ideal será transparente ao crime que sanciona; assim, para quem a contempla, ela será infalivelmente o sinal do crime que castiga; e para quem sonha com o crime, a simples ideia do delito despertará o sinal punitivo. Vantagem para a estabilidade da ligação, vantagem para o cálculo das proporções entre crime e castigo e para a leitura quantitativa dos interesses; pois tomando a forma de uma consequência natural, a punição não aparece como o efeito arbitrário de um poder humano."
Vigiar e punir. Petrópolis, Vozes, 1987, 27a Ed. p. 87


Hoje me deparei com mais um discurso de ódio anti PT a qualquer custo na minha timeline.O que me assusta é que isso tem se tornado cada vez mais normal e não se discute mais política, apenas corrupção. Eu, na minha inocência, me achei capaz de desconstruir tal discurso de ódio e enviei ao dito cujo a declaração de bens de Aécio Neves.

Nesta declaração que consta no site do TSE (http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2014/sistema-de-divulgacao-de-candidaturas) começa com um apartamento na Lagoa/Leblon pela bagatela de R$ 109.550,00. Ora, por essa micharia qualquer trabalhador que se esforçasse poderia ter um apartamento no Lagoa com um financiamento do " Minha casa, minha vida".Tenho certeza que muitos trabalhadores iam adorar essa possibilidade de morar com aquela vista. Além disso, sua qualidade de vida seria outra, poderiam correr de manhã na Lagoa, ir de metrô pro trabalho.. Acontece que essa é a realidade de uma minoria muito pequena. Um grão de areia no mar.Por isso a declaração de bens de Aécio é uma impáfia. Um insulto a inteligência. Como nosso querido candidato não anda de ônibus, não usa a saùde pública(não é a toa que não investiu nem 12% do orçamento do Estado de Minas em saúde), não estuda numa escola pública e etc..No entanto, ele não trabalhou duro para conseguir comprar um apartamento, simplesmente nasceu neto de um presidente da república.

Meu dia segue. No trânsito, num engarrafamento. Várias mercedes passam em volta do carro do meu pai velozes e penso: O que leva uma pessoa a comprar um carro que vale mais do que a casa de muita gente? Só pode ser pra ostentar, porque custo benefício de se ter uma Mercedes em terras tupiniquins inexiste. 
Repentinamente, aparece um motoqueiro encapuzado e aponta uma arma para o motorista da Mercedez. Isso o intimida e faz com que ele abra o vidro. Apontando a arma ele consegue fazê-lo entregar o relógio, carteira . Em seguida, ele sai numa arrancada pelos corredores entre os carros. Simultaneamente, um homem negro e corpulento sai da mercedes armado correndo atrás do motoqueiro.Por sorte, não começou um tiroteio em pleno engarrafamento na Avenida das Américas.
De que serviu o segurança pro dono da Mercedez? Que diferença faz uma carteira e um relógio para ele? O que é a vida?

Nessa tensão paradoxal em que vivemos somos lobotomizados, automatizados. Somos condicionados a nos sentir de uma determinada forma já que só existimos nesta porra de capitalismo enquanto consumidores(enquanto escrevo este texto a Claro me liga para oferecer uma promoção). Temos nossos desejos de tal forma manipulados que acabamos por criar relações emocionais com mercadorias. Agora, o que veio antes o mercado ou a vida?

Essas eleições não estão fáceis, estamos encurralados feito gado em BRT/ônibus/trem/metrô/engarrafamento.Não temos nenhuma opção de esquerda que nos satisfaça. No entanto, eu sei o que não quero: a naturalização do primado do privado sobre o público. E sei quem representa esse projeto político.

Democracia se faz com direitos e transparência. para todos discutirem.E o segurança está ali para deixar as coisas opacas. Qual é o sentido de um policial privado?

Hoje, peguei um BRT lotado p voltar p casa, sem espaço nem p respirar. Não tenho dúvidas de que ele estava cheio porque haviam muitas mercedes andando na rua com apenas um ocupante. Diante de tal indignação, decidi filmar o ônibus partindo. Eis quando tento pegar o movimento do veículo se afastando da plaforma me aparece um segurança e põe a mãe na frente do meu celular. Fiquei posesso diante de tal atitude e lhe questionei:Porque? Ele me responde: Normas da empresa. Eu vocifero: Isso não é lei.

Em que Estado vivemos?  Para Weber, o caracterizava o Estado era o nonopólio da coerção ou seja, da violência física institucionalmente legitimada. No entanto, hoje somos coagidos por seguranças dentro do âmbito do privado. Vivemos num Estado de direito? Por isso tenho nojo do projeto privatista. Por isso, vou votar 13, apesar de todas contradições.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

às 4 da manhã

estar em si. somos uma rachadura no infinito. hachuela
gosto desse som
só que como um diálogo
sempre inacabado. sempre na cesura
sempre na contingência. sempre um esboço.

a morte é tudo o que existe
já que o pensamento enquanto humano
é sempre uma morte.
mesmo quando crescemos estamos morrendo.
eternamente caminhando.
Se o presente está sempre morrendo
a morte não existe. Ou nada existe além da morte.
quer saber, não importa.
Os passarinhos cantam às 4 da manhã
do mesmo jeito.

"Vejo que está sofrendo. Mas se não pode mudar a si mesmo, tente mudar o mundo.
Fique bem, isto é o mais importante!
Por que só os tolos sentem-se bem?
A estupidez é infalível, você sabe
e o mundo não faz sentido sem a estupidez humana.
As vezes penso que todas as nossas categorias humanas
são uma farsa e tudo é o oposto : a vitória é uma punição
e a perda é um prêmio. Quer saber, vemos a vida como o maior valor
e a morte como a pior das perdas. E se a morte tivesse maior valor e a vida
fosse uma derrota? Mas pense.. Parafraseando Epíteto, o passado não pode morrer
porque já está morto. O futuro não existe porque ainda não chegou. Só o presente pode morrer,
o momento atual e está constantemente morrendo. Conclusão?  A morte não existe.
Ou nada existe, exceto a morte.Oh, eu adoro livros. Só eles me levam à sério.
-São generalizações, Tia
-Eu não posso ouvir isso. Sim, sim eu entendo. E vejo que a escuridão reina em você.
Mas você sabe, traduzi um poema persa antigo recentemente e falava algo lindo
sobre a escuridão. " a escuridão não é o oposto da luz, mas o seu berço. Só na escuridão a luz pode nascer."
Eu vou ler para você.

Sêneca, Cartas a Lucilius
"Não encontramos com a morte de repente, mas andamos em direção a ela através
de pequenos detalhes que morrem todos os dias. A cada dia que passa, um pouco da nossa vida é tirado de nós. Mesmo quando crescemos a nossa vida está em declínio. Perdemos nossa infância e, depois, nossa juventude. Contando até ontem, todo o passado está perdido. Até o dia que estamos vivenciando agora é compartilhado entre nós mesmos e a morte. Nós atingimos a morte em determinado momento embora tenhamos estado muito tempo na estrada."

E Heidegger com sua ideia de floresta. Sabe, Heidegger compara a vida com estar em uma clareira. Isso é um tipo de clareira, ou um feixe de luz. Antes de nascermos, nós vivemos naquela floresta escura como um ser em potencial. E quando nascemos, nós vamos para essa clareira, para a luz, para sermos visíveis. Mas as pessoas só nos vem do ponto que elas nos observam. E durante nossa vida, ninguém, ninguém nos vê como um todo. E depois da morte voltamos para essa floresta escura, tendo o nosso ingresso registrado no livro da vida pois, de acordo com Heidegger, o ser é indestrutível. Então o que é a morte? A decomposição da matéria? A destruição da consciência? Ou é a separação, é sumiço do campo de visão e dos sentimentos? Quantas pessoas já enterrei embora estando vivas? Quantas já me enterraram? Enquanto eu existo, eu penso e sinto? Havia fortes laços entre nós, vivíamos juntos, passávamos por experiências semelhantes, de repente, sem nenhuma explicação, paramos de encontrar-nos, telefonar e escrever um ao outro. Usualmente, por algum motivo
insignificante.Alguém se afastou, disse algumas palavras indelicadas ou olhou para alguém de forma errada. Ou pelo menos parecia. Ou alguém disse que alguém disse que alguém tinha dito algo ou coisa parecida. E por isso tornou-se banal.

domingo, 5 de outubro de 2014

Dos buracos negros

a mulher imã
te atraie pro
seu campo gravitacional
te engole feito buraco
negro.


como aranha na teia ela tece
o seu querer no outro
até o outro achar tanbém ela

no interestelar dessas super galáxias
ela é um espelho que eu vi
uma realidade paralela
a minha história de menino

Mamãe me amava muito.

sábado, 4 de outubro de 2014

superfície e profundidade

Pra mim o debate político está se tornando um debate entre a profundidade e a superfície. Uns, clamam por Maquiável e a a sobreposição dos meios sobre os fins, enquanto outros

“‘Vamos reencontrar, invariavelmente, no signo a conversão da pluralidade em unidade, e na palavra, o tornar comum, vulgar mediano mediante a igualação do desigual. Em ambos os casos, a perspectiva do rebanho. Nesse ponto, convém mostrar que, há uma distinção, cara a Nietzsche, entre profundidade e superfície que permite compreender a remessa da palavra ao comum. Com relação à superfície, trata-se, para o filósofo, de tornar comum, através da fala, os estados vivenciados. Por profundidade, ele entende os processos indeterminados, desconhecidos, inapreensíveis, que se passam na luta entre aquilo que ele denomina de impulso, força ou vontade de potência. Instância detentora de qualquer expressar, não se deixa vulgarizar a ponto de ser traduzida em uma linguagem passível de compartilha, mas, ao contrário, é vedado o acesso a esse domínio via consciência. Nada há de pessoal na consciência, na visão do filósofo, já que a mesma se desenvolveu devido à necessidade de comunicação, estando, por isso, vinculada à rede do comunicar e do utilizar. Tem-se aqui uma especificidade da compreensão nietzschiana acerca do pensar e do estar consciente desse pensar: "o homem como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não sabe disso; o pensamento que se torna consciente é apenas a mínima parte dele, e nós dizemos: a parte mais superficial, a parte pior..." (FW/GC 354, KSA 3.590). A distinção existente entre o pensar, que não se separa do querer e do sentir, e do estar consciente desse pensar separa diametralmente a profundidade e a superfície. No primeiro caso, a inexistência de comunicação; no segundo, a vulgarização que permite o tornar comum. Disso decorre a impossibilidade de apreensão e compartilha dos processos que se passam aquém da comunicação, isto é, de tudo aquilo que se passa em profundidade”

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

a resposta de lucilius

molhar até Jesus
me beatificar no fluído do impossível
(os opostos estão sempre nos olhando, provavelmente, devem estar no céu ou no inferno rindo de nós)
meu sangue sai de mim
como cristo na cruz
(o escuro não é o oposto da luz, mas o seu berço)

Carta de Seneca a Lucilius

Publico abaixo uma das cartas do filósofo romano Seneca a seu amigo Lucilius, escrita no ano 63 DC.



Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.

Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.

E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!


http://temporama.blogspot.com.br/2011/01/carta-de-seneca-lucilius.html