você me ensina a ser só
é tudo que um pai pode ensinar
ao seu filho
fumo contigo.
gosto de fazer os meus conta própria
acho que um homem deve ser artesão
de seu vício.
nossos cigarros são diferentes
(a praticidade me cansa)
gosto de me colocar nas coisas.
você sempre me ensinou
a objetividade.
e eu nem sabia que eu pensava assim
até te perceber em mim.
as horas passam no transcorrer das águas
o vermelho dos cravos me descortinam o além
(terras onde tu que me emprestou seu sangue não foi)
vermelho de paixão?
não, é só amor mesmo.
aquoso, disforme:vazando pelas bordas.
essa é a minha lição.
"A uns eu atribuia vicios -fumo, roubo- mas não sou de índole sexual e não lhes atribuia actos, salvo creio, uma predileção, que me parecia um acto de brincar, de beijar raparigas e espreitar-lhes as pernas. Fazia-os fumar papel enrolado por trás de uma caixa grande que havia em cima de uma mala. Ás vezes aparecia no lugar do mestre. E era com toda emoção deles que eu me via obrigado a sentir, que eu arrumava logo o cigarro e punha o fumador vendo-o curiosamente desprendido à esquina, esperando o mestre, e cumprimentando-o, não me lembro bem como, á inevitável passagem... Ás vezes, estavam longe um do outro, e eu não podia com um braço manobrar esse e outro com o outro. Tinha que os fazer andar alternadamente. Doía-me isto como hoje me dói não poder dar expressão a uma vida... Ah, mas porque recordo eu isto? Porque não fiquei eu sempre criança? Porque não morri eu ali, num desses momentos, preso das astúcias dos meus escolares e da vinda como-que-inesperada dos meus mestres? Hoje não posso fazer isto... Hoje tenho só a realidade, com que não posso brincar... Pobre criança exilada na sua virilidade! Porque foi que eu tive de crescer?
Hoje, quando relembro isto, vem-me saudades de mais coisas que isto tudo. Morreu em mim mais do que o meu passado."
Página 141, Livro do Desassossego, Rio de Janeiro: Tinta-da-china Brasil, 2013.
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