você me olha
me pedindo pra que
eu te veja.
mas eu não vejo nada.
me entregar não é
uma escolha.
meu coração
foi parar nas suas
mãos por acaso:
nada disso faz sentido
algum.
a vida é vivida meu amor.
"Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer – um prazer delicado demais para minha grosssa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.- Fiz tal esforço em me falar de um inferno que não tem palavras. Agora como falarei de um amor que não tem se não aquilo que sente, e diante do qual a palavra "amor"é um objeto empoeirado?O inferno pelo qual eu passara – como te dizer? – fora o inferno que vem do amor. Ah, as pessoas põem a idéia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de pecado maior – é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo é o susto de uma criança. Mas como falarei para mim mesma do amor que eu agora sabia?É no neutro do amor que está uma alegria contínua,como um barulho de folhas ao vento.E eu cabia na nudez neutra da mulher na parede.O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha prece humana.Então vê, meu amor, a verdade não pode ser má.A verdade é o que é.Eu estava habituada somente a transcender.Esperança pra mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre.E descobri que não é necessário sequer ter esperança.Porque as coisas são o que são.Basta saber isso.
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